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#60 - Empatia 2

  • Foto do escritor: viniciuscagnotto
    viniciuscagnotto
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura

Há um ano decidi escalar um Everest ético e desenvolvi uma demonstração filosófica sobre Empatia com o objetivo de dissolver a sua identificação como um sentimento. A tese, porém, rendeu um pouco mais do que isso e eu recomendo a sua leitura antes de continuar nesta postagem, afinal a relação é intrínseca.


DEMONSTRAÇÃO SOBRE EMPATIA


Empatia se tornou um objeto de estudo muito caro para mim. Talvez devido a rebeldia em não aceitá-la da forma tão vazia como é proferida e consumida hoje pelo senso comum. A romantização da Empatia nada mais é do que a Banalização do Bem (Hannah Arendt que me perdoe).


Por enxergá-la no âmbito da Ética, a questiono incessantemente. O que me leva dois tipos peculiares de desenvolvimento de sua ideia: a vertical e a lateral.


O verticalidade implica aprofundamento e agora posso admitir que a tese do passado (que espero que já tenham lido) já não mais concorda totalmente com o que penso hoje sobre o tema. Faltam aspectos importantíssimos. Para citar alguns:


  • Temporalidade: Não é possível pensar em empatia, eticamente, sem o atravessamento do tempo;

  • Dinamismo: Não levo em conta a ideia de volatilidade, apenas o incremento “positivo”;

  • Transformação: Não abordo a alteração do sujeito ao engajar numa atividade empática;

  • Potência: Falta de sua possível relação com afetos de “alegria” e “tristeza” espinozistas. O que implica que Empatia pode não ser sempre “boa”.

  • Instrumentalismo: Não discrimino seu uso manipulativo;

  • Excesso: Muita empatia também pode fazer mal.


Porém, mesmo entendendo que o pensamento evoluiu, ainda posso optar por um desenvolvimento lateral, que foi exatamente o que fiz. 🙂

Decidi explorar a lógica da demonstração e elaborar (com muito custo e cansaço mental) um Sistema Lógico-Fenomenológico.

Um método de análise de argumentações que utiliza lógica simbólica para explorar furos no pensamento. E eu os encontrei! E tive que fazer alterações: uma definição nova aqui, alguns axiomas novos ali… Para que tudo se encaixasse logicamente.

Uma doidera!


O LONGO texto abaixo é o resultado desse trabalho. (também em PDF)

Não é exatamente um texto para leitura, eu sei. Foi um estudo de caso mais individual do que público. Mesmo assim, eu tenho mais motivos de porque sim para compartilhá-lo do que o contrário. Incluse o de curioside: sim, esse tipo de coisa existe.


Eu ainda tenho projetos com tema Empatia e com o tempo novas evoluções serão compartilhadas.


PDF para download



EMPATIA - Sistema Lógico-Fenomenológico



1. Legenda dos Símbolos Operacionais


1.1 Operadores Lógicos


  • ¬ = negação

  • ∧ = conjunção

  • → = implicação

  • ↛ = não implicação

  • ↔ = equivalência lógica


1.2 Quantificadores


  • ∀ = para todo

  • ∃ = existe

  • ¬∃ = não existe


1.3 Operadores Relacionais


  • = = igualdade

  • ≠ = diferença

  • ≡ = equivalência estrutural ou conceitual

  • ≥ = maior ou igual


1.4 Símbolos Estruturais


  • ( ) = agrupamento lógico

  • | = condicionado por



2. Vocabulário Formal


2.1 Sujeitos


  • S: sujeito (eu)

  • O: outro sujeito


2.2 Conceitos Fundamentais


  • E: empatia

  • C: compreensão

  • P: percepção

  • A: alteridade

  • CO: compaixão

  • J: julgamento

  • PJ: projeção

  • ET: ética

  • F: fênomenos

  • DA: domínio afetivo

  • x: variável

  • t: tempo


2.3 Operadores Relacionais


  • Comp(S,O): sujeito busca compreender o outro

  • Redu(S,O): redução do outro ao eu

  • Resp(S,x): responsabilidade diante de algo

  • Dor(O): afeto primário de tristeza no outro

  • Horiz(S): horizonte hermenêutico do sujeito

  • Abert(S, O): abertura interpretativa

  • Concl(S, O): conclusão fixa sobre o outro

  • Recip(O, S): reciprocidade

  • Cond(S): condição situada do sujeito

  • DepNorm(S): dependência normativa externa

  • Esc(S,O): escuta ativa

  • Ident(S,O): identificação subjetiva

  • Intenc(S): intencionalidade prática

  • Concord(S,O): concordância

  • Desac(S,O): desacordo

  • Complet(E): completude da empatia

  • Iner(E,S): empatia inerente ao sujeito

  • Sent(S,F): apreensão de fenômenos a partir de sentidos

  • Cog(S,F): apreensão de fenômenos a partir de cognição

  • Nec(x): necessidade de algo

  • Poss(x): possibilidade de algo

  • Interpret(x): interpretação consciênte de algo

  • Exp(x): experiência subjetiva de algo

  • Abs(S,x): absorção total de algo

  • Sentim(x): algum sentimento

  • Ato(x): alguma ação / qualquer ação de alguém

  • Consc(x): consciência de



3. Definições


1.  Empatia 

É um exercício contínuo de consciência social, voltado à compreensão de outro indivíduo sem reduzi-lo à própria experiência.


Formalização:

E(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Redu(S,O)

2. Compreensão 

É o ato interpretativo pelo qual se busca captar o sentido da experiência do outro, mesmo na impossibilidade de absorvê-lo completamente.


Formalização:

C(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Abs(S,Exp(O))

3. Percepção 

É o processo pelo qual um sujeito apreende fenômenos externos por meio dos sentidos e da cognição.


Formalização:

P(S,F) → Sent(S,F) ∧ Cog(S,F)

4. Alteridade

É a irredutibilidade do outro ao eu, ou seja, a existência de uma subjetividade que jamais pode ser completamente absorvida por outra.


Formalização:

A(O,S) → ¬Abs(S,Exp(O))

5. Compaixão 

É um sentimento que surge diante da dor do outro, sem necessidade de compreender o contexto que a originou.


Formalização:

CO(S,O) → P(S,DOR(O)) ∧ ¬Nec(C(S,O))

6. Julgamento 

É a formação de uma opinião sobre o outro a partir de um conjunto de preceitos e experiências prévias.


Formalização:

J(S,O) → Interpret(O|Exp(S))

7. Projeção 

É a apropriação da experiência do outro como se fosse a própria.


Formalização:

PJ(S,O) → Interpret(Exp(O)|Exp(S))

8. Ética 

É o exercício consciente de responsabilidade pelas consequências do próprio agir diante do outro e do mundo, sem recorrer a normas externas ou juízos morais fixos.


Formalização:

ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)

9. Domínio Afetivo

É parte do domínio afetivo qualquer resposta emocional imediata diante de fenômenos, experiências ou indivíduos.


Formalização:

DA ≡ Sentim(x) ∧ ¬Nec(Interpret(x))

4. Axiomas


Axioma 1

Nenhum sujeito pode acessar diretamente a totalidade da experiência de outro sujeito.


Formalização:

∀S∀O (S ≠ O → ¬Abs(S,Exp(O)))

Axioma 2

Toda compreensão é mediada por um horizonte interpretativo prévio.


Formalização:

∀S∀O (C(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))

Axioma 3

A percepção é sempre situada e parcial, nunca absoluta.


Formalização:

∀S∀F (P(S,F) → Cond(S) ∧ ¬Abs(S,F))

Axioma 4

O outro é sempre irredutível ao eu.


Formalização:

∀S∀O (S ≠ O → A(O,S))

Axioma 5

O julgamento se instaura quando a abertura da compreensão cede lugar a uma conclusão fixa sobre o outro.


Formalização:

∀S∀O (¬Abert(S,O) ∧ Concl(S,O) → J(S,O))

Axioma 6

A compaixão pode existir sem compreensão, mas a empatia exige compreensão.


Formalização:

CO(S,O) ↛  C(S,O)
e
E(S,O) → C(S,O)

Axioma 7

A empatia, como um exercício sem fim, nunca se completa, apenas se aprimora.


Formalização:

(¬∃t Complet(E_t(S,O))) ∧ (∀t Poss(E_t+1(S,O) ≥ E_t(S,O)))

Axioma 8

A empatia não depende de reciprocidade.


Formalização:

E(S,O) ↛  Recip(O,S)

Axioma 9

A projeção anula a alteridade ao confundir a experiência do outro com a própria.


Formalização:

PJ(S,O) → ¬A(O,S)

Axioma 10

Um sentimento não precisa de interpretação prévia para existir.


Formalização:

Sentim(x) → ¬Nec(Interpret(x))

Axioma 11

A identificação com o outro pode levar à projeção da própria experiência sobre ele.


Formalização:

Ident(S,O) → Poss(PJ(S,O))

Axioma 12

O exercício empático implica responsabilidade consciente diante da alteridade.


Formalização:

E(S,O) → Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S))

Axioma 13

O exercício empático não depende de normatividade externa.


Formalização:

E(S,O) → ¬DepNorm(S)


5. Proposições e Demonstrações


Proposição 1

A empatia não é um sentimento, mas um exercício interpretativo.


Demonstração

Pelo Axioma 6:
	E(S,O) → C(S,O)
E pelo Axioma 2:
	∀S∀O (C(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))
Logo:
	∀S∀O (E(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))
Além disso, também pelo Axioma 6:
	CO(S,O) ↛  C(S,O)
E pelo Axioma 10:
	Sentim(x) → ¬Nec(Interpret(x))
Conclui-se:
	¬Sentim(E) 
Q.E.D.

Proposição 2

A empatia é sempre incompleta.


Demonstração

Pelo Axioma 1:
	∀S∀O (S ≠ O → ¬Abs(S,Exp(O)))
E pelo Axioma 3:
	∀S∀F (P(S,F) → Cond(S) ∧ ¬Abs(S,F))
E ela Definição 2:
	C(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Abs(S,Exp(O))
E pelo Axioma 6:
	E(S,O) → C(S,O)
Logo:
	E(S,O) → ¬Complet(E(S,O))
Q.E.D.

Proposição 3

"Eu entendo" (ou qualquer outra tentativa de demonstração de totalidade compreensiva) é uma expressão que pode indicar julgamento, e não empatia.


Demonstração

Pelo Axioma 5:
	∀S∀O (¬Abert(S,O) ∧ Concl(S,O) → J(S,O))
E pelo Axioma 7:
	(¬∃t Complet(E_t(S,O))) ∧ (∀t Poss(E_t+1(S,O) ≥ E_t(S,O)))
Logo:
	Complet(C(S,O)) → ¬Abert(S,O)
E:
	¬Abert(S,O) ∧ Concl(S,O) → Poss(J(S,O))
Portanto:
	Complet(C(S,O)) → Poss(J(S,O))
Q.E.D.

Proposição 4

A empatia depende da consciência da alteridade.


Demonstração

Pelo Axioma 4:
	∀S∀O (S ≠ O → A(O,S))
E pelo Axioma 9:
	PJ(S,O) → ¬A(O,S)
E pela Definição 7:
	PJ(S,O) → Interpret(Exp(O)|Exp(S))
Como:
	Interpret(Exp(O))=Exp(S) → Redu(S,O)
Logo:
	PJ(S,O) → Redu(S,O)
E:
	Redu(S,O) → ¬A(O,S)
Além disso, pela Definição 1:
	E(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Redu(S,O)
E:
	¬Redu(S,O) → A(O,S)
Portanto:
	E(S,O) → A(O,S)
Q.E.D.

Proposição 5

A compaixão não é sinônimo de empatia.


Demonstração

Pela Proposição 1:
	¬Sentim(E)
E pela Definição 5:
	CO(S,O) → P(S,DOR(O)) ∧ ¬Nec(C(S,O))
E pelo Axioma 6:
	CO(S,O) ↛  C(S,O)
	e
	E(S,O) → C(S,O)
Logo:
	CO(S,O) ≠ E(S,O)
Q.E.D.

Proposição 6

A empatia não exige identificação, mas escuta.


Demonstração

Pelo Axioma 11:
	Ident(S,O) → Poss(PJ(S,O))
E pelo Axioma 9:
	PJ(S,O) → ¬A(O,S)
Pela Proposição 4:
	E(S,O) → A(O,S)
Logo:
	Ident(S,O) ↛  E(S,O)
Além disso:
	Esc(S,O) → Poss(C(S,O))
Pelo Axioma 6:
	E(S,O) → C(S,O)
E:
	C(S,O) → Esc(S,O)
Portanto:
	E(S,O) → Esc(S,O)
Q.E.D.

Proposição 7

A empatia é ética, enquanto a compaixão é afetiva.


Demonstração

Pela Definição 5:
	CO(S,O) → P(S,DOR(O)) ∧ ¬Nec(C(S,O))
Pela Definição 9:
	DA ≡ Sentim(x) ∧ ¬Nec(Interpret(x))
E pelo Axioma 10:
	Sentim(x) → ¬Nec(Interpret(x))
Logo:
	CO(S,O) → DA
Pela Proposição 4:
	E(S,O) → A(O,S)
Pelo Axioma 12:
	E(S,O) → Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S))
Pelo Axioma 13:
	E(S,O) → ¬DepNorm(S)
Pela Definição 8:
	ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)
Logo:
	E(S,O) → ET(S,O)
Portanto:
	CO(S,O) → DA
	e
	E(S,O) → ET(S,O)
Q.E.D.

Proposição 8

A empatia pode existir mesmo em desacordo.


Demonstração

Pelo Axioma 2:
	∀S∀O (C(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))
E:
	Interpret(O|Horiz(S)) ↛  Concord(S,O)
Logo:
	C(S,O) ↛  Concord(S,O)
E:
	Desac(S,O) → Poss(C(S,O))
Pela Proposição 4:
	E(S,O) → A(O,S)
E:
	Poss(C(S,O)) ∧ A(O,S) → Poss(E(S,O))
Portanto:
	Desac(S,O) ∧ A(O,S) → Poss(E(S,O))
Q.E.D.

Proposição 9

A empatia é um ato unilateral de consciência, não uma troca mútua de compreensão.


Demonstração

Pelo Axioma 8:
	E(S,O) ↛  Recip(O,S)
Pela Proposição 7:
	E(S,O) → ET(S,O)
Pela Definição 8:
	ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)
Logo:
	E(S,O) → Consc(S,Ato(S))
Portanto:
	E(S,O) → Consc(S,Ato(S)) ∧ ¬Recip(O,S)
Q.E.D.

Proposição 10

A projeção é um obstáculo à empatia.


Demonstração

Pela Definição 7:
	PJ(S,O) → Interpret(Exp(O)|Exp(S))
Como:
	Interpret(Exp(O)|Exp(S)) → Redu(S,O)
Logo:
	PJ(S,O) → Redu(S,O)
Pelo Axioma 9:
	PJ(S,O) → ¬A(O,S)
Pela Proposição 4:
	E(S,O) → A(O,S)
Logo:
	PJ(S,O) → ¬E(S,O)
Q.E.D.

Proposição 11

A empatia não é inerente ao indivíduo, mas uma prática intencional.


Demonstração

Pela Proposição 1:
	¬Sentim(E)
Pelo Axioma 6:
	E(S,O) → C(S,O)
Pela Proposição 7:
	E(S,O) → ET(S,O)
Pela Definição 8:
	ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)
Logo:
	E(S,O) → Consc(S,Ato(S))
E:
	Consc(S,Ato(S)) → Intenc(S)
E:
	Intenc(S) → ¬Iner(E,S)
Portanto:
	E(S,O) → Intenc(S) ∧ ¬Iner(E,S)
Q.E.D.

Deixa Eu Pensar | #60 - Empatia 2

 
 
 

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