#60 - Empatia 2
- viniciuscagnotto
- há 5 dias
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Há um ano decidi escalar um Everest ético e desenvolvi uma demonstração filosófica sobre Empatia com o objetivo de dissolver a sua identificação como um sentimento. A tese, porém, rendeu um pouco mais do que isso e eu recomendo a sua leitura antes de continuar nesta postagem, afinal a relação é intrínseca.
DEMONSTRAÇÃO SOBRE EMPATIA
Empatia se tornou um objeto de estudo muito caro para mim. Talvez devido a rebeldia em não aceitá-la da forma tão vazia como é proferida e consumida hoje pelo senso comum. A romantização da Empatia nada mais é do que a Banalização do Bem (Hannah Arendt que me perdoe).
Por enxergá-la no âmbito da Ética, a questiono incessantemente. O que me leva dois tipos peculiares de desenvolvimento de sua ideia: a vertical e a lateral.
O verticalidade implica aprofundamento e agora posso admitir que a tese do passado (que espero que já tenham lido) já não mais concorda totalmente com o que penso hoje sobre o tema. Faltam aspectos importantíssimos. Para citar alguns:
Temporalidade: Não é possível pensar em empatia, eticamente, sem o atravessamento do tempo;
Dinamismo: Não levo em conta a ideia de volatilidade, apenas o incremento “positivo”;
Transformação: Não abordo a alteração do sujeito ao engajar numa atividade empática;
Potência: Falta de sua possível relação com afetos de “alegria” e “tristeza” espinozistas. O que implica que Empatia pode não ser sempre “boa”.
Instrumentalismo: Não discrimino seu uso manipulativo;
Excesso: Muita empatia também pode fazer mal.
Porém, mesmo entendendo que o pensamento evoluiu, ainda posso optar por um desenvolvimento lateral, que foi exatamente o que fiz. 🙂
Decidi explorar a lógica da demonstração e elaborar (com muito custo e cansaço mental) um Sistema Lógico-Fenomenológico.
Um método de análise de argumentações que utiliza lógica simbólica para explorar furos no pensamento. E eu os encontrei! E tive que fazer alterações: uma definição nova aqui, alguns axiomas novos ali… Para que tudo se encaixasse logicamente.
Uma doidera!
O LONGO texto abaixo é o resultado desse trabalho. (também em PDF)
Não é exatamente um texto para leitura, eu sei. Foi um estudo de caso mais individual do que público. Mesmo assim, eu tenho mais motivos de porque sim para compartilhá-lo do que o contrário. Incluse o de curioside: sim, esse tipo de coisa existe.
Eu ainda tenho projetos com tema Empatia e com o tempo novas evoluções serão compartilhadas.
PDF para download
EMPATIA - Sistema Lógico-Fenomenológico
1. Legenda dos Símbolos Operacionais
1.1 Operadores Lógicos
¬ = negação
∧ = conjunção
→ = implicação
↛ = não implicação
↔ = equivalência lógica
1.2 Quantificadores
∀ = para todo
∃ = existe
¬∃ = não existe
1.3 Operadores Relacionais
= = igualdade
≠ = diferença
≡ = equivalência estrutural ou conceitual
≥ = maior ou igual
1.4 Símbolos Estruturais
( ) = agrupamento lógico
| = condicionado por
2. Vocabulário Formal
2.1 Sujeitos
S: sujeito (eu)
O: outro sujeito
2.2 Conceitos Fundamentais
E: empatia
C: compreensão
P: percepção
A: alteridade
CO: compaixão
J: julgamento
PJ: projeção
ET: ética
F: fênomenos
DA: domínio afetivo
x: variável
t: tempo
2.3 Operadores Relacionais
Comp(S,O): sujeito busca compreender o outro
Redu(S,O): redução do outro ao eu
Resp(S,x): responsabilidade diante de algo
Dor(O): afeto primário de tristeza no outro
Horiz(S): horizonte hermenêutico do sujeito
Abert(S, O): abertura interpretativa
Concl(S, O): conclusão fixa sobre o outro
Recip(O, S): reciprocidade
Cond(S): condição situada do sujeito
DepNorm(S): dependência normativa externa
Esc(S,O): escuta ativa
Ident(S,O): identificação subjetiva
Intenc(S): intencionalidade prática
Concord(S,O): concordância
Desac(S,O): desacordo
Complet(E): completude da empatia
Iner(E,S): empatia inerente ao sujeito
Sent(S,F): apreensão de fenômenos a partir de sentidos
Cog(S,F): apreensão de fenômenos a partir de cognição
Nec(x): necessidade de algo
Poss(x): possibilidade de algo
Interpret(x): interpretação consciênte de algo
Exp(x): experiência subjetiva de algo
Abs(S,x): absorção total de algo
Sentim(x): algum sentimento
Ato(x): alguma ação / qualquer ação de alguém
Consc(x): consciência de
3. Definições
1. Empatia
É um exercício contínuo de consciência social, voltado à compreensão de outro indivíduo sem reduzi-lo à própria experiência.
Formalização:
E(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Redu(S,O)2. Compreensão
É o ato interpretativo pelo qual se busca captar o sentido da experiência do outro, mesmo na impossibilidade de absorvê-lo completamente.
Formalização:
C(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Abs(S,Exp(O))3. Percepção
É o processo pelo qual um sujeito apreende fenômenos externos por meio dos sentidos e da cognição.
Formalização:
P(S,F) → Sent(S,F) ∧ Cog(S,F)4. Alteridade
É a irredutibilidade do outro ao eu, ou seja, a existência de uma subjetividade que jamais pode ser completamente absorvida por outra.
Formalização:
A(O,S) → ¬Abs(S,Exp(O))5. Compaixão
É um sentimento que surge diante da dor do outro, sem necessidade de compreender o contexto que a originou.
Formalização:
CO(S,O) → P(S,DOR(O)) ∧ ¬Nec(C(S,O))6. Julgamento
É a formação de uma opinião sobre o outro a partir de um conjunto de preceitos e experiências prévias.
Formalização:
J(S,O) → Interpret(O|Exp(S))7. Projeção
É a apropriação da experiência do outro como se fosse a própria.
Formalização:
PJ(S,O) → Interpret(Exp(O)|Exp(S))8. Ética
É o exercício consciente de responsabilidade pelas consequências do próprio agir diante do outro e do mundo, sem recorrer a normas externas ou juízos morais fixos.
Formalização:
ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)9. Domínio Afetivo
É parte do domínio afetivo qualquer resposta emocional imediata diante de fenômenos, experiências ou indivíduos.
Formalização:
DA ≡ Sentim(x) ∧ ¬Nec(Interpret(x))4. Axiomas
Axioma 1
Nenhum sujeito pode acessar diretamente a totalidade da experiência de outro sujeito.
Formalização:
∀S∀O (S ≠ O → ¬Abs(S,Exp(O)))Axioma 2
Toda compreensão é mediada por um horizonte interpretativo prévio.
Formalização:
∀S∀O (C(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))Axioma 3
A percepção é sempre situada e parcial, nunca absoluta.
Formalização:
∀S∀F (P(S,F) → Cond(S) ∧ ¬Abs(S,F))Axioma 4
O outro é sempre irredutível ao eu.
Formalização:
∀S∀O (S ≠ O → A(O,S))Axioma 5
O julgamento se instaura quando a abertura da compreensão cede lugar a uma conclusão fixa sobre o outro.
Formalização:
∀S∀O (¬Abert(S,O) ∧ Concl(S,O) → J(S,O))Axioma 6
A compaixão pode existir sem compreensão, mas a empatia exige compreensão.
Formalização:
CO(S,O) ↛ C(S,O)
e
E(S,O) → C(S,O)Axioma 7
A empatia, como um exercício sem fim, nunca se completa, apenas se aprimora.
Formalização:
(¬∃t Complet(E_t(S,O))) ∧ (∀t Poss(E_t+1(S,O) ≥ E_t(S,O)))Axioma 8
A empatia não depende de reciprocidade.
Formalização:
E(S,O) ↛ Recip(O,S)Axioma 9
A projeção anula a alteridade ao confundir a experiência do outro com a própria.
Formalização:
PJ(S,O) → ¬A(O,S)Axioma 10
Um sentimento não precisa de interpretação prévia para existir.
Formalização:
Sentim(x) → ¬Nec(Interpret(x))Axioma 11
A identificação com o outro pode levar à projeção da própria experiência sobre ele.
Formalização:
Ident(S,O) → Poss(PJ(S,O))Axioma 12
O exercício empático implica responsabilidade consciente diante da alteridade.
Formalização:
E(S,O) → Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S))Axioma 13
O exercício empático não depende de normatividade externa.
Formalização:
E(S,O) → ¬DepNorm(S)5. Proposições e Demonstrações
Proposição 1
A empatia não é um sentimento, mas um exercício interpretativo.
Demonstração
Pelo Axioma 6:
E(S,O) → C(S,O)
E pelo Axioma 2:
∀S∀O (C(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))
Logo:
∀S∀O (E(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))
Além disso, também pelo Axioma 6:
CO(S,O) ↛ C(S,O)
E pelo Axioma 10:
Sentim(x) → ¬Nec(Interpret(x))
Conclui-se:
¬Sentim(E)
Q.E.D.Proposição 2
A empatia é sempre incompleta.
Demonstração
Pelo Axioma 1:
∀S∀O (S ≠ O → ¬Abs(S,Exp(O)))
E pelo Axioma 3:
∀S∀F (P(S,F) → Cond(S) ∧ ¬Abs(S,F))
E ela Definição 2:
C(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Abs(S,Exp(O))
E pelo Axioma 6:
E(S,O) → C(S,O)
Logo:
E(S,O) → ¬Complet(E(S,O))
Q.E.D.Proposição 3
"Eu entendo" (ou qualquer outra tentativa de demonstração de totalidade compreensiva) é uma expressão que pode indicar julgamento, e não empatia.
Demonstração
Pelo Axioma 5:
∀S∀O (¬Abert(S,O) ∧ Concl(S,O) → J(S,O))
E pelo Axioma 7:
(¬∃t Complet(E_t(S,O))) ∧ (∀t Poss(E_t+1(S,O) ≥ E_t(S,O)))
Logo:
Complet(C(S,O)) → ¬Abert(S,O)
E:
¬Abert(S,O) ∧ Concl(S,O) → Poss(J(S,O))
Portanto:
Complet(C(S,O)) → Poss(J(S,O))
Q.E.D.Proposição 4
A empatia depende da consciência da alteridade.
Demonstração
Pelo Axioma 4:
∀S∀O (S ≠ O → A(O,S))
E pelo Axioma 9:
PJ(S,O) → ¬A(O,S)
E pela Definição 7:
PJ(S,O) → Interpret(Exp(O)|Exp(S))
Como:
Interpret(Exp(O))=Exp(S) → Redu(S,O)
Logo:
PJ(S,O) → Redu(S,O)
E:
Redu(S,O) → ¬A(O,S)
Além disso, pela Definição 1:
E(S,O) → Comp(S,O) ∧ ¬Redu(S,O)
E:
¬Redu(S,O) → A(O,S)
Portanto:
E(S,O) → A(O,S)
Q.E.D.Proposição 5
A compaixão não é sinônimo de empatia.
Demonstração
Pela Proposição 1:
¬Sentim(E)
E pela Definição 5:
CO(S,O) → P(S,DOR(O)) ∧ ¬Nec(C(S,O))
E pelo Axioma 6:
CO(S,O) ↛ C(S,O)
e
E(S,O) → C(S,O)
Logo:
CO(S,O) ≠ E(S,O)
Q.E.D.Proposição 6
A empatia não exige identificação, mas escuta.
Demonstração
Pelo Axioma 11:
Ident(S,O) → Poss(PJ(S,O))
E pelo Axioma 9:
PJ(S,O) → ¬A(O,S)
Pela Proposição 4:
E(S,O) → A(O,S)
Logo:
Ident(S,O) ↛ E(S,O)
Além disso:
Esc(S,O) → Poss(C(S,O))
Pelo Axioma 6:
E(S,O) → C(S,O)
E:
C(S,O) → Esc(S,O)
Portanto:
E(S,O) → Esc(S,O)
Q.E.D.Proposição 7
A empatia é ética, enquanto a compaixão é afetiva.
Demonstração
Pela Definição 5:
CO(S,O) → P(S,DOR(O)) ∧ ¬Nec(C(S,O))
Pela Definição 9:
DA ≡ Sentim(x) ∧ ¬Nec(Interpret(x))
E pelo Axioma 10:
Sentim(x) → ¬Nec(Interpret(x))
Logo:
CO(S,O) → DA
Pela Proposição 4:
E(S,O) → A(O,S)
Pelo Axioma 12:
E(S,O) → Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S))
Pelo Axioma 13:
E(S,O) → ¬DepNorm(S)
Pela Definição 8:
ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)
Logo:
E(S,O) → ET(S,O)
Portanto:
CO(S,O) → DA
e
E(S,O) → ET(S,O)
Q.E.D.Proposição 8
A empatia pode existir mesmo em desacordo.
Demonstração
Pelo Axioma 2:
∀S∀O (C(S,O) → Interpret(O|Horiz(S)))
E:
Interpret(O|Horiz(S)) ↛ Concord(S,O)
Logo:
C(S,O) ↛ Concord(S,O)
E:
Desac(S,O) → Poss(C(S,O))
Pela Proposição 4:
E(S,O) → A(O,S)
E:
Poss(C(S,O)) ∧ A(O,S) → Poss(E(S,O))
Portanto:
Desac(S,O) ∧ A(O,S) → Poss(E(S,O))
Q.E.D.Proposição 9
A empatia é um ato unilateral de consciência, não uma troca mútua de compreensão.
Demonstração
Pelo Axioma 8:
E(S,O) ↛ Recip(O,S)
Pela Proposição 7:
E(S,O) → ET(S,O)
Pela Definição 8:
ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)
Logo:
E(S,O) → Consc(S,Ato(S))
Portanto:
E(S,O) → Consc(S,Ato(S)) ∧ ¬Recip(O,S)
Q.E.D.Proposição 10
A projeção é um obstáculo à empatia.
Demonstração
Pela Definição 7:
PJ(S,O) → Interpret(Exp(O)|Exp(S))
Como:
Interpret(Exp(O)|Exp(S)) → Redu(S,O)
Logo:
PJ(S,O) → Redu(S,O)
Pelo Axioma 9:
PJ(S,O) → ¬A(O,S)
Pela Proposição 4:
E(S,O) → A(O,S)
Logo:
PJ(S,O) → ¬E(S,O)
Q.E.D.Proposição 11
A empatia não é inerente ao indivíduo, mas uma prática intencional.
Demonstração
Pela Proposição 1:
¬Sentim(E)
Pelo Axioma 6:
E(S,O) → C(S,O)
Pela Proposição 7:
E(S,O) → ET(S,O)
Pela Definição 8:
ET(S,O) ↔ Consc(S,Ato(S)) ∧ Resp(S,Ato(S)) ∧ A(O,S) ∧ ¬DepNorm(S)
Logo:
E(S,O) → Consc(S,Ato(S))
E:
Consc(S,Ato(S)) → Intenc(S)
E:
Intenc(S) → ¬Iner(E,S)
Portanto:
E(S,O) → Intenc(S) ∧ ¬Iner(E,S)
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