#49 - "SUBTEXTO"
- viniciuscagnotto
- 31 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

Já passava da meia-noite. Minha mesa parecia que havia sido atingida por uma tempestade. Dezenas de papéis me encaravam, me julgavam. Meus olhos estavam cansados. Minha mente precisava de cinco minutos. Abri o último pacote de cigarros. Vazio. Olhei para a garrafa do outro lado da sala. Vazia.
— Laura…
E o pior, eu não estava sozinha.
— Diga, Humberto.
— Como você consegue trabalhar no meio dessa sujeira toda?
Ele sentava no MEU sofá segurando um dos MEUS copos com a última dose do MEU whisky. Pegou o celular e começou a scrollar algum aplicativo inútil.
— Por que mesmo você ainda está aqui, Humberto?
Ele me encarou com cara de debochado.
— Não seja assim. Eu sei que está tarde, mas você mesma disse que estamos quase conseguindo alguma pista útil.
— “Estamos”?
— Ai, ai, ai… Tá bom — Ele guardou o celular e veio em minha direção — Me diz, o que você está vendo agora?
Era uma péssima ideia. Ele ia mais atrapalhar do que ajudar. Mas eu estava cansada. Talvez ele, como responsável pelo caso, devesse se esforçar um pouco mais.
— Estou presa nessa carta aqui. Tem alguma coisa nela, disso eu sei. Mas não estou conseguindo descobrir.
— Deixa eu ver… Me parece uma carta normal para o irmão. Bom, “normal” não é. Afinal, quem escreve cartas à mão e as envia pelo correio hoje em dia?
— Pois é, mas ele é escritor. Dá aulas de literatura e caligrafia, lembra? Deve gostar de manter a tradição escrita. Mas você não percebe nada de estranho nessa carta?
— Nada que nos ajude com o caso, não.
— Leia com calma.
Alberto, foi de uma felicidade ímpar receber notícias suas.
Bem que eu gostaria de trazer novidades tão boas quanto as que compartilhou.
Continuamos tentando encontrar diversão por aqui.
Dentro de dois dias nossa viagem acaba e
Estamos há cinco dias tentando escapar de uma
Febre alta que nos pegou de surpresa depois de uma
Garoa fina que não para de cair nesta cidade.
Hoje, ainda meio mal, pensei em levar todos para alguma diversão, mesmo sendo
Introvertido como sou, decidi que não seria um
"Jovem" incoveniente. Eu já tenho meus cinquenta, quero evitar conflitos, então
Karaokê. Um lugar que todos se soltam.
Lembrei de nossas festas cantando em família, mas admito que
Me cansei da agitação e
Não consigo mais me sentir confortável em lugares cheios de gente.
Outra vez, pela quinta ou sexta, vamos nos isolar em um dos
Pesqueiros do interior. Eles tem cabanas parecidas com os
Queridos chalés de Monte Verde.
Recuperarei minha saúde sentindo
Saudades dos nossos encontros do passado neste lugar.
Top 5 lugares favoritos da mamãe.— Não vejo nada. Nós já tinhamos analisado essa carta antes e esse pesqueiro era um lugar de encontro da família. Nós fomos até lá e não encontramos ninguém.
— Exatamente. Não tinha ninguém, mesmo com a carta dizendo que iam estar lá.
— Também achamos esquisito, Laura, mas quem sabe ele mudou de ideia. Ele não quer ser encontrado. O Alberto diz não saber de nada e não temos como fazê-lo cooperar. Acho que devíamos focar em outra coisa.
— Tem mais coisa, Humberto. Olha isso.
Mostrei meu caderno com algumas anotações simples do texto. Eu havia percebido de cara o padrão alfabético de cada frase. A primeira letra de cada uma sequenciava o abecedário. Humberto não se impressionou.
— Interessante, mas como você disse, ele é escritor. Deve gostar dessas maluquices nos textos.
— Tem mais coisa, Humberto — Eu estava incrédula que o indivíduo que liderava um dos maiores casos de sequestro e assassinato do litoral não conseguia ver algo tão simples — Vou te ajudar, tá, não é difícil? — Sim, eu estava provocando. Ele me deu um sorriso amarelo — Pensa em cada letra inicial representando um número também em sequência, que nada mais é do que o número da frase no texto
1 - Alberto, foi de uma felicidade ímpar receber notícias suas.
2 - Bem que eu gostaria de trazer novidades tão boas quanto as que compartilhou.
3 - Continuamos tentando encontrar diversão por aqui.
4 - Dentro de dois dias nossa viagem acaba e
5 - Estamos há cinco dias tentando escapar de uma
6 - Febre alta que nos pegou de surpresa depois de uma
7 - Garoa fina que não para de cair nesta cidade.
8 - Hoje, ainda meio mal, pensei em levar todos para alguma diversão, mesmo sendo
9 - Introvertido como sou, decidi que não seria um
10 - "Jovem" incoveniente. Eu já tenho meus cinquenta, quero evitar conflitos, então
11 - Karaokê. Um lugar que todos se soltam.
12 - Lembrei de nossas festas cantando em família, mas admito que
13 - Me cansei da agitação e
14 - Não consigo mais me sentir confortável em lugares cheios de gente.
15 - Outra vez, pela quinta ou sexta, vamos nos isolar em um dos
16 - Pesqueiros do interior. Eles tem cabanas parecidas com os
17 - Queridos chalés de Monte Verde.
18 - Recuperarei minha saúde sentindo
19 - Saudades dos nossos encontros do passado neste lugar.
20 - Top 5 lugares favoritos da mamãe.— E daí, Laura? Não mudou nada.
Era como mostrar algo para uma porta.
— Tem uma segunda mensagem aí. Admito, pra não te deixar se sentindo tão mal, que demorei um pouco pra ver também. Mas veja a primeira frase. Tem a palavra “ímpar”. E isso já me deu a ideia de reajustar o texto apenas com as frases de número ímpar. Veja.
1 - Alberto, foi de uma felicidade ímpar receber notícias suas.
3 - Continuamos tentando encontrar diversão por aqui.
5 - Estamos há cinco dias tentando escapar de uma
7 - Garoa fina que não para de cair nesta cidade.
9 - Introvertido como sou, decidi que não seria um
11 - Karaokê. Um lugar que todos se soltam.
13 - Me cansei da agitação e
15 - Outra vez, pela quinta ou sexta, vamos nos isolar em um dos
17 - Queridos chalés de Monte Verde.
19 - Saudades dos nossos encontros do passado neste lugar.Humberto arregalou os olhos.
— Monte Verde. Então é lá que o safado está? Laura, eu sei que não digo muito, mas você é incrível.
Ele tentou me abraçar.
— Tá bom, tá bom. Mas não é tão simples. Realmente, o encaixe funciona, mas não é a verdade. Ele está brincando com a gente. Isso eu descobri ontem. Já entrei em contato os chalés que a família se hospedava em Monte Verde e ninguém se hospeda lá há alguns meses.
— Não entendo.
— Nem eu. Mas eu tentei fazer outras combinações aqui e nada funciona. Estou há horas tentando decifrar alguma outra coisa nesse texto.
Humberto se jogou no sofá, desolado. A frustração foi um golpe e tanto para ele.
— Eu não aguento mais, Laura, esse caso está me deixando maluco, eu sabia que tinha que ter deixado esse pro Queirós e… — Ele ia começar a desabafar. Eu não tinha tempo para aquilo. Toda vez que empacávamos ele começava com o sentimentalismo vitimista dele — me preocupado com os casos mais simples. Eu sabia. Já estamos há 5 semanas nessa toada e nada se resolve. Sabe, eu também estou quase beirando os cinquenta, não tenho mais emocional para esse estresse todo e…
— Espera. O que você disse?
— Que não tenho mais emocional, Laura. Estou farto disso tudo.
— Não. Você está beirando os “cinquenta”? — Comecei rapidamente a passar os olhos no texto novamente.
— Isso, 48 mês que vêm. Vê se não esquece meu presente.
— Descobri, Humberto. Descobri onde ele está.
Os olhos de Humberto se iluminaram e ele correu para o meu lado.
— Veja. A cada 5 frases tem alguma menção ao número 5. Quando você falou “cinquenta”, eu percebi. Olha como fica.
5 - Estamos há cinco dias tentando escapar de uma
10 - "Jovem" incoveniente. Eu já tenho meus cinquenta, quero evitar conflitos, então
15 - Outra vez, pela quinta ou sexta, vamos nos isolar em um dos
20 - Top 5 lugares favoritos da mamãe.— Laura, você é um gênio! — Ele estava em êxtase, era até divertido de ver — Então, só temos que descobrir que lugares são esses que a “mamãe” tanto gosta. Deixa eu ligar pro delegado.
— No final, foi bom ter te feito me ajudar, foi um bom insight o que você deu — Eu nem acreditava que tinha conseguido decifrar aquilo. Depois que se chega lá, parece tão óbvio.
— Delegado, já temos como prosseguir no caso, eu descobri uma pista essêncial. Estou indo pra delegacia agora mesmo.
Ele desligou o celular e se virou para mim. Ao ver minha cara, seu sorriso começou a sumir.
— “Você” descobriu?
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