#52 - O VELHO DRAGÃO - PARTE 1: PAAR (Ambição)
- viniciuscagnotto
- 22 de jan.
- 2 min de leitura
ASAS ESFARRAPADAS

Se eu fosse a brisa que acaricia um rosto fervente, suado e cansado, um causador de invisível e impalpável reconforto pontual digno de um êxtase simbólico que conflita diretamente com os princípios mais importantes do que significa valorizar as pequenas coisas, eu seria pouco. Não sou pouco. “Pouco” não configura nem o pouco do quanto sei que sou o contrário. A brisa, gentil, é minha, hierarquicamente. A submeto a meu bel prazer e a converto em vontade de meus próprios propósitos. De que modo seria diferente, uma vez que não posso conceber outro entendimento de meu ser senão o de ser ainda mais?
Fui feito para longo alcance e o reconheço como tal. Fui feito para a elevação e a busco incessantemente. Sou subjugado apenas pelo entendimento da grandeza da qual tenho certeza de que sou. Uma parte de um conjunto maior, sim, é nítido. Ainda assim tão relevante e modulador quanto meus pares, se sozinhos. Talvez mais.
Não há contenção. Aquela bondosa brisa seria rasgada por meus movimentos se ousasse contrariar o lugar que lhe cabe abaixo de mim.
Deveria eu, em contrapartida, renegar o que sou? Com qual razão, eu reflito. E sim, eu reflito.
Mas há um impulso que antecede qualquer justificativa. Ele não nasce de alguma lógica ou sequer de uma carência. É apenas uma vontade, silenciosa e brutal, de ir além do que já é.
“Vocação?”, você, que pouco entende, pode indagar. Ou apenas natureza?
Perguntamos se devemos querer mais ou apenas queremos? Eu conheço a resposta em meu âmago e a abraço no entendimento de que não há atravessamento do mundo que deixa de ceder quando alguém avança. Quando eu avanço.
“Mas não há prejuízo?”, você insiste, ao me ver bailar no ar, monumental e conquistador.
Sempre há prejuízo! A ilusão do “limpo”, do “correto”, do “ético” ludibria unicamente asas que não podem voar.
A confusão nasce no gesto inocente de rotular moralidades num tribunal eloquente de certos e errados normativos e categóricos. A consequência, clara como uma manhã sem nuvens, é a falta do reconhecimento de que a força da qual me refiro, e sou, é real e incontrolável. Mas o julgamento chega antes, principalmente por aqueles que são avessos aos meus rasantes ou à minha altitude.
A infelicidade que se dá àqueles que acreditam que devem agir apenas por bons motivos é, contraditoriamente, deixarem-se levar pela ambição de um agir sozinho. Um agir alheio. Uma ação não parte de um todo. Inconsequente. Irrefletido.
E tudo que age sozinho e é parte de nada, a não ser de suas próprias e virulentas ideias irreversíveis, tende a não ser cuidadoso.
A diferença entre a brisa que me alça e o meu controle indelicado sobre ela é, simplesmente, a consciência de que essa disparidade de relação existe e uma responsabilidade se faz viva, ainda que, organicamente, possa ser ignorada. Sem qualquer lamento.
O conflito começa quando esse custo é tratado como irrelevante ou inevitável, como se o crescimento fosse um direito neutro. Afinal, asas não se esfarrapam por acaso.
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