#51 - SUPERELIPSES
- viniciuscagnotto
- 13 de jan.
- 4 min de leitura

“Presença”. A rara e quase extinta moeda de troca que a contemporaneidade enterrou sem marcar um X no mapa. Foi a primeira definição livre que me veio à mente, mas equivocada. X no mapa é o que não falta. Piratas do comportamento e da autoajuda sabem exatamente onde cavar esse tesouro perdido, basta apenas adquirir uma nova técnica.
“Técnica”. Hoje, uma palavra atravessada por um câmbio ilusório que movimenta a economia da solidão e do “você também consegue!”. Propaganda dos afetos. Marketing da manipulação.
“Marketing da manipulação”? Pleonasmo. Foi uma piada, o que não significa que seja totalmente falaciosa. O intuito claro e escancarado de vender “soluções” para se viver é pautado apenas em oportunismo diante de uma sociedade carente e insatisfeita, mediante a eterna comparação, também manipulativa, daquilo que deveria ser o “correto” no quesito “viver bem”. Dito isso, não há porquê se deter ainda mais neste trajeto infértil, a digressão já se faz distante demais da ilha objetivo. Regressemos.
“Presença”. Uma dinâmica de convivência onde dois ou mais seres estabelecem consciência ativa, porém limitada, sobre os demais aos quais interagem.
“Consciência limitada”? Não poderia ser diferente, uma vez que o entendimento do outro já é parcial por si só. As elipses narrativas, ou seja, os vãos aos quais não temos contato, e talvez nunca tenhamos, na vida de cada um serão, por natureza social, sempre maiores do que as pegadas que podemos rastrear. Ora, é uma conjectura simples, no final. Em todo momento em que não há presença, há uma elipse. Há um vão. Há um momento perdido do saber de um para algum outro.
“Vão”. Uma lacuna, uma falta, um hiato. A abordagem aqui é materializada. Obviamente, não numa parede ou num pedaço rasgado de papel, mas na personificação física de um sujeito em determinado período de tempo. Para ser mais correto, na “despersonificação”, afinal a fisicalidade, neste vão, simplesmente não o é. Não poderia Ser. Há uma falta, lembra? Não há o sujeito. Mas o sujeito existe, sim. Claro que sim. O outro é um preenchimento de ideias que temos deste sujeito que pode estar ou não estar. Que pode ser pintura ou quadro em branco. Ladrilho ou lacuna.
“Preenchimento”. Aqui, ato mental, não material (uma dissonância cognitiva?), de elaborar, por livre e espontânea percepção enviesada, novas trilhas, que nunca foram exploradas, diga-se de passagem, para aquele X. Não. Não para o X em si. Para justificar o conhecimento, ou até mesmo a posse, deste X.
“Presença”. Único meio de conexão, vínculo, abraço mental com outros, independentemente das elipses, já que são inevitáveis. Inevitáveis, sim, por maior que seja a intimidade que foi anteriormente configurada entre os envolvidos. Sempre haverá vãos. Ainda que se situe o mais tóxico dos controles anti-lacunas, eles estarão “não” mostrando algo.
“Vão”. Um vácuo, uma omissão, um intervalo. A abordagem aqui é mental. Como chegar ao X que você enxerga no mapa se a elipse da atenção escondeu a sequência de traços que indicam o caminho?
“Elipse”. Todo período de tempo onde existe o não saber empírico. De forma simples, todo o período em que você não tem ou não teve contato com determinado objeto. Por mais que o caso seja apenas que tal objeto tenha se levantado da mesa para ir ao banheiro. Todo esse período de “alívio” do objeto em questão, para o outro, o navegante que busca o X, é um vão. Curiosamente, com certa licença poética, é claro, tal exemplo aqui, no parágrafo nove, depois da citação conceitual lá no quarto parágrafo, gerou uma elipse de meio texto do entendimento em si. Talvez eu esteja exagerando, mas nunca mencionei que a explicação de um vão empírico precisava estar empiricamente pautada em seu conceito.
“Digressão”. Aquele momento onde a bússola deixa de funcionar por algum tipo de interferência externa, causando um desvio de rota. Basicamente, metade do parágrafo acima. A correção de um caminho, seja ele em busca do X ou de um ensaio textual, só pode ser dada através da atenção.
“Atenção”. Diferente de presença, porém dependente. Interesse genuíno que implica invariavelmente em um hiperfoco para com as trilhas que indicam o trajeto. Exatamente o contrário de “elipse”, então? Não. Mas quase. Se o vão for mental, mais provável. Afinal, a não conquista do tesouro quando se há materialidade só pode ser por uma falha do mental. Convivemos com elipses materiais. Ninguém sabe, nem tem que saber, o que cada outro está a, ou deixa de, fazer. Redundante, aqui, mencionar que toda falta da presença física é uma nova elipse em relação a alguém. Pense agora na pessoa com quem mais teve contato na vida. Todos os períodos em que não houve fisicalidade de tempo e espaço há um vão impossível de ser preenchido de forma concreta. E assim explico “elipse” pela terceira vez, transformando este ensaio num amontoado de prolixidades.
“Presença”. Contrário daquele momento onde existem dois ou mais seres num mesmo recinto e algum deles, de forma automática e involuntária, começa a interagir com seu celular, o que basicamente incendeia o mapa do seu X e gera, assim, inúmeras elipses para todos ao redor. Talvez o objetivo aqui fosse exatamente a urgência do entendimento de que a virtualização das interações sociais é proliferadora de elipses e não de presença. E aqui citamos, em especial, os vãos que geram dissonância cognitiva. Elipses estas que se multiplicam exponencialmente, mesmo que o período de tempo, efetivamente, seja curto. O tempo é desconsiderável na virtualização. Não é apenas uma ida ao banheiro ou uma saída do ambiente de trabalho até o próximo dia útil, ou então alguns meses ou até anos sem contato com outrem. Estas são elipses naturais da vida cotidiana, das relações. Não. Elipses virtuais, probabilisticamente, se proliferam em questão de segundos e se perdem entre inúmeras novas linhas traçadas no mapa, já queimado e em frangalhos.
“Frangalhos”. De acordo com o dicionário: devastado emocionalmente; completamente usado, deteriorado; pedaço de pano velho.
“Pano velho”. Estado atual da presença.
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