#48 - DOIS BURROS ENTRAM NUM BAR
- viniciuscagnotto
- 23 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

— Tava lendo Mitologia. Tu já leu?
— Tu sabe ler? Haha.
— Para de graça. Mitologia grega, cara, sabe? Deuses, titãs e os caraio…
— O que mais tem por aí é deus, não consigo acompanhar.
— Mas essa é das boa. Tem esse bicho, o Cronos. Esse é brabo. Dono dos relógios, deve conseguir parar o tempo e tudo, imagina só?
— Isso aí é coisa de filme, hein. Me passa o nome depois.
— É Mitologia, pô. De mais de mil anos já. Esse Cronos era filho do Céu e da Terra. Só que o Céu, Urano…
— Ur-“Anus” haha…
— …prendeu os filhos dentro da mãe. Mas, mesmo assim, ainda ia lá toda hora ter com ela no bem bom.
— Eita, que safado. Mas prendeu por quê?
— Medo.
— Medo de quê?
— Essas entidades cósmicas são tudo umas cagona quando se trata de futuro. Só pensam no agora. Um dia, no meio desse bem bom aí do pai, o Cronos decepou-lhe a piroca quando ela tava dentro da mãe, a Gaia.
— Valha-me.
— Pois é. Resolveu na faca.
— Funcionou?
— Funcionou. Virou o dono da rua. O pai subiu, virou esse céuzão eunuco aí. A mãe ficou aqui embaixo. E no meio nasceu tudo.
— Bonito isso. Violência fundando o mundo.
— Um clássico.
— Ainda bem que ele não matou o céu, pelo menos. O que seria de nós?
— Esses bichos dessas histórias são tudo imortal. E não esquece: o Cronos é o Tempo, ele já é infinito.
— Ser o tempo é tipo jogar no easy. Tá aí um superpoder bom.
— Será?
— Ué? Salvou a família, né?
— Mais ou menos. No começo era só alegria, mas…
— Ih, lá vem.
— Quando tinha filho, engolia. Um por um.
— Por quê?
— Pra ninguém tomar o lugar dele.
— Calma. Então ele se voltou contra o pai… pra depois virar o pai?
— E você esperava o quê de diferente?
— Engraçado isso. O cara sofre com um pai escroto e, quando tem chance, decide organizar o mundo do mesmo jeito.
— Aquela coisa de oprimido e opressor, não tem jeito.
— Ele era burro, isso sim.
— E tinha uma profecia, ou coisa do tipo, que falava que algum filho ia causar também.
— Quem diria que o novo modelo de ditador seria apenas um novo covarde. Mas deixa eu ver se entendi: o Tempo tinha medo do futuro?
— Exatamente.
— Que ironia do caralho.
— O bicho empacou na ideia dentro da própria cabeça e ia engolindo os filhos tudo. Engoliu cinco. Só não engoliu o caçula porque a mãe escondeu a criança e deu uma pedra embrulhada pro marido engolir.
— A textura nem devia ser diferente, né?
— Olha, quando tu começa a engolir tudo só pra manter controle, a capacidade de distinguir as coisas se perde. Pensa: se o Tempo é infinito, nada tá realmente fora de possibilidade. Não tem como garantir que algo “nunca vai acontecer”.
— Nem que algo “vai acontecer”.
— Sim, só que o Cronos não tinha essa noção. Ele só quis controlar pra tudo ficasse da mesma forma, igual, sem mudanças. Pensando em Tempo, é um paradoxo.
— Tu já vai começar a falar difícil. Mas e aí? E o caçula?
— E aí que esse caçula era Zeus.
— Ah! O dos raios e trovões. Igual o Tio Victor, do Castelo Rá-tim-bum.
— Ele dá um jeito de fazer o Cronos vomitar os irmãos e começa uma baita duma guerra.
— Quanto daddy issue numa história só.
— E qual história não tem?
— E aí, Zeus arrancou as bolas do Cronos?
— Não, mas ganhou a guerra, virou o novo “rei” e…
— Teve filhos.
— Igual um coelho.
— Que burro.
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