#22 - CARTA AO PALHAĆO
- viniciuscagnotto
- 13 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de abr. de 2025
uerido profissional do entretenimento,
Quando me contaram dos seus males, me apressei a lhe redigir uma mensagem.
HÔ muito não conversamos. Sinto falta dos seus risos verdadeiros e suas brincadeiras animadas. Daquele ambiente confortÔvel, onde o susto, quando existe, é para alegrar e não para oprimir.
Apesar da falta de presença, quase como mil léguas de afastamento, indiferente até agora a qualquer movimento em sua vida, somos vizinhos, então acredito que seja prudente expor o que penso sobre toda a sua situação.
Meu amigo PalhaƧo, soube recentemente que seu espetƔculo estƔ falindo.
à de uma tristeza enorme presenciar, mesmo sem a devida importância, como o seu auge hÔ tempo é nostÔlgico.
Toda aquela maquiagem colorida e exuberante que destacava bem as expressões dos seus atos originais, hoje são definitivamente apenas uma mÔscara, tentando esconder em uma gota bem azul pintada logo abaixo dos olhos, lÔgrimas reais que manchariam o mais fino cosmético.
Sinto muito pelo seu espetĆ”culo estar em ruĆnas, mas admito que era de se esperar.
Ora, não me leve a mal, mas seu novo show era insustentÔvel. E não pela narrativa midiÔtica, que caçava a cada linha uma renovada atenção através de punchlines gastos e truques de marketin⦠Quero dizer, de mÔgica.
A realidade Ʃ que insustentƔvel era a sua performance. O seu esforƧo. A rotina exaustiva que cada vez mais sugava de ti seu principal produto: a Felicidade.
Seria impossĆvel continuar, vocĆŖ jĆ” estava Ć beira de um colapso. Quanto mais vocĆŖ se dedicava para trazer animação e entusiasmo para seu pĆŗblico, mais difĆcil era garantir as mesmas palmas em uma segunda ocasiĆ£o. Afinal, hoje existe a mentalidade da reinvenção e seus espectadores andam enjoando cada vez mais rĆ”pido, nĆ£o Ć© verdade?
Veja bem, a culpa nĆ£o Ć© inteiramente sua, talvez nem āmeiamenteā. Hmm, acho que essa palavra nĆ£o existe, querido PalhaƧo, mas vocĆŖ me entendeu. Na realidade, existe um grande espetĆ”culo acontecendo acima de nós que emprega a todos para atuar em um show contĆnuo. VocĆŖ nĆ£o tinha como saber, mas esse espetĆ”culo muda as regras da audiĆŖncia e controla a plateia de forma formidĆ”vel. NĆ£o havia muito o que se fazer.
Eu sei que vocĆŖ acreditou que poderia dar conta. Entregar cada vez mais, se esforƧar cada vez mais, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Afinal, āThe Show Must Go Onā.
Mas como seria possĆvel continuar essa caminhada de propósito pessoal sem o combustĆvel que vocĆŖ mais ingeria: a diversĆ£o?
As coisas mudaram, meu nobre Palhaço, e você entendeu tudo errado.
Não é à toa que o cansaço te alcançou.
Lembra quando rir era alegria? Hoje Ʃ apenas uma mƩtrica.
O afeto virou um Call To Action.
Quantos likes são necessÔrios para se sentir acolhido?
DifĆcil saber, ainda nĆ£o descobrimos como calcular a ilusĆ£o.
E vocĆŖ, nesse novo sistema, virou um avatar de uma promessa que nunca se cumpre.
Dorme pouco, produz muito, e ainda acha que a piada nunca estĆ” boa o suficiente.
Meu irmão Palhaço, você virou gerente da sua própria exploração.
Mas olha só, se servir de algum consolo, por mais trÔgico que pareça, você não estÔ sozinho. Ninguém estÔ mais rindo. Não de verdade.
EstĆ£o todos batendo palmas por costume. De forma algorĆtmica.
O espetÔculo do cotidiano é vazio, é uma abstração, não existe de verdade.
E você, na tentativa de tirar algum valor desse palco estéril, virou figurante da própria tragédia.
Sorriso fixo, coluna torta, conta no vermelho.
Sabe o que Ć© pior?
Ninguém te obriga. Você se obriga.
VocĆŖ se pressiona, se cobra, se finge forte.
Ć escravo voluntĆ”rio, com crachĆ” de empreendedor, seu próprio chefe, cobrando sua produtividade com voz doce e motivacional junto com quatro xĆcaras de cafĆ© e algumas cĆ”psulas milagrosas.
Amigo Palhaço, não estou apontando o dedo para te culpar.
Claramente vocĆŖ foi exposto ao discurso mais abominĆ”vel da atualidade. Aquele com frases como āseja a melhor versĆ£o de vocĆŖā ou ātrabalhe enquanto eles dormemā ou mesmo āse vocĆŖ sonhar, pode realizarā.
A armadilha é muito bem armada pelos donos do circo, aqueles que comandam o picadeiro e decidem o valor da entrada. A promessa de se tornar também um dono de espetÔculo é tentadora, eu sei, mas eles não querem sócios. Deixa eu te contar algumas verdades.
Não hÔ mais plateia. Só existe concorrência.
Não hÔ mais espetÔculo. Só ficou a atuação falsa.
Não hÔ mais circo. Só hÔ trabalho interminÔvel.
Então, amigo Palhaço, ao invés de retocar a sua maquiagem para esconder o cansaço,
deixe-a rachar.
Pare de performar. Pare de produzir.
Canse-se e silencie-se.
Pelo menos por um momento, onde serĆ” possĆvel reorganizar suas emoƧƵes.
Entenda que você não precisa do nariz vermelho para ter algum valor.
Entenda que o seu valor estƔ alƩm de qualquer espetƔculo.
Me despeço aqui com a esperança de não ter sido muito duro com você, meu nobre amigo.
Desejo de todo coração que esse cansaço que sente seja o que te abrirÔ os olhos.
Desejo ainda que consiga reerguer sua peça, aquela alegre, aconchegante, autêntica e contagiante. Sem exageros e mesmo assim, bela de apreciar, sem qualquer pressão ou opressão.
Com genuĆna solidariedade,
Um outro PalhaƧo.
Deixa Eu Pensar | #22 - Carta Ao PalhaƧo
